Daniel Vorcaro é um sujeito inteligente. Disso todo o mundo sabe. O que ninguém sabe é o que ele pretende conseguir ao propor uma delação premiada para contar apenas aquilo que a Polícia Federal já sabe. E, mesmo assim, nem tudo! O que espera conseguir? Não se sabe, a não ser por especulações que chegam a afrontar a inteligência do sujeito, como a que diz que ele está procurando ganhar tempo. Tempo de cadeia? Ora! Tenham paciência!
O certo é que a embromação do ex-banqueiro tem tirado o sono não apenas de figurões em Brasília, mas até de candidatos tidos como favoritos nos estados. Antes, claro, da entrada de Daniel Vorcaro em campo. A pesquisa Genial Quaest mostra isso claramente. Lula avançou de 29% para 37%, enquanto Flávio recuou de 31% para 24% na faixa dos eleitores chamados independentes.
É uma parcela reduzida do eleitorado, mas faz a diferença em disputas polarizadas. É gente que foca em nomes, sem se importar com siglas. Pode tender ao conservadorismo, como a maioria da população, mas não se submete à conversa do PL ou do centrão. Pode não gostar do PT, mas votar em Lula. Atribui-se a ela a diferença a favor de Lula na eleição 2022. Mas não é só isso. Lula avançou também em uma área antes quase exclusiva de Bolsonaro: os evangélicos. Lula subiu sete e Flávio caiu nove pontos. Ou seja, reduziu em 16 pontos a imensa diferença nesse recorte da pesquisa.
Mas isso não afeta os estados, acreditam alguns. Estão errados. Até porque quando faz a balança pender para um dos lados, isso provoca o tal efeito manada e pode atrair aquele eleitor que não quer “perder o voto na maquininha”. E se muda a cabeça da “cola”, é até natural que mude todo o resto. Para quem pensa que isso é coisa de pesquisa adversária, melhor não olhar a pesquisa da BTG/Nexus desta semana (no primeiro turno, Lula atinge 42% e Flávio 33%. No segundo, Lula dispara: 49% contra 43%) Você, leitor, sabe quem deve estar assustado com isso em Rondônia? Marcos Rogério!
Ele mesmo, cuja maior virtude é uma fidelidade canina à família Bolsonaro. E cuja principal proposta é tirar Jair Bolsonaro da cadeia, não importa quem possa permanecer por lá. O senador pode até não estar mesmo preocupado. Mas deveria! A coisa tende ao agravamento. A visita a Trump, arquitetada como solução, incorporou novas quedas ao calvário de Flávio. Buliu até num vespeiro chamado Pix. Então? O eleitor rondoniense pode ser majoritariamente conservador. Mas não necessariamente bolsonarista radical, conforme ficou demonstrado na surpreendente eleição de Leo Moraes.
De volta a Daniel Vorcaro. Analistas, comentaristas, editorialistas, palpiteiros e afins se exasperam a sugerir, elucubrar, congeminar, examinar e matutar sobre o que lhe vai na cabeça. Seguem todos a famosa expressão de Sherlock Holmes, o detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle (nada a ver com Freud): “Quando você elimina o impossível, o que restar, por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade”.
Mas falta muita coisa a ser considerada na relação dos improváveis. Por exemplo: e se as mensagens do primeiro celular aberto pela PF tiverem sido cuidadosamente elaboradas como advertência aos figurões citados? Não é plausível um sujeito brilhante, ainda que para o mal, agir assim como aluno da quinta série em ligações para a noiva. Porque não teria produzido ali um sinal de perigo: “Seu nome aparece no meu celular porque estou preso e você não fez nada para me livrar! Então?”
O mesmo raciocínio pode explicar o fracasso das delações. Pode ser uma advertência dirigida a quem, acredita, possa livrá-lo: “Estou segurando os caras, mas não sei até quando consigo. Vou ser obrigado a envolver todo o mundo!” Nessa circunstância ele pode conseguir até mesmo ser mantido na cela presidencial da Polícia Federal por questão de segurança. Afinal, interessa a muita gente que esse arquivo seja apagado. Especialmente os guardiões de bilhões certamente mantidos em contas secretas no exterior. Ou ele não teria se oferecido para devolver R$ 40 bilhões se efetivada a delação.