Prefeita de Estrela/RS
é atacada por gratidão

 

O que terá feito a prefeita Carine Schwingel, do União Brasil, para chamar a atenção e provocar um excelente e esclarecedor artigo assinado pelo jornalista João Guató, do Pasquim Cuiabano? Nada além do que recomenda o compromisso primordial assumido. Não com a avidez dos dirigentes partidários ou a “SS” das redes sociais, mas com a população do município de Estrela/RS, que a elegeu. Jornalista por formação, ela faz questão de exaltar sua fidelidade à verdade.

O pecado mortal que a prefeita cometeu é o mesmo sistermaticamente evitado por inúmeros prefeitos rondonienses de vários partidos, atendidos, encaminhados e acompanhados em Brasília pelo senador Confúcio Moura, da base governista. Ela agradeceu publicamente pela ajuda recebida do governo Lula. João Guaitó escreve: (A prefeita) “Disse que nunca perguntaram a ela de qual partido era quando buscou ajuda em Brasília. Frase simples. Dinamite política”.

O articulista esclarece que “Tem horas em que a política brasileira parece um campeonato de birra. Aí vem uma enchente, arrasta sofá, memória, fotografia de casamento e, de quebra, leva embora o discurso pronto. Foi o que aconteceu em Estrela, aquela cidade de 35 mil habitantes que aprendeu na marra que ideologia não segura parede quando o rio decide entrar pela sala.

Eleita pelo União Brasil, a prefeita Carine Schwingel, resolveu fazer algo quase subversivo para os padrões atuais: agradecer. Em público. Ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem pedir licença ao tribunal das redes sociais. Sem manual de militância. Apenas agradeceu.

Enquanto metade do país vive em modo torcida organizada, ela subiu ao microfone e falou de 800 casas, de três bairros praticamente destruídos, de famílias que não tinham mais endereço, só saudade. Falou de escolas reconstruídas, posto de saúde, infraestrutura, parque linear com preocupação ambiental. Coisa chata, concreta, que não rende meme, mas rende telhado.

O detalhe que incomodou foi outro: ela é conservadora. De partido oposicionista. Em tese, personagem perfeita para reclamar da União. Mas resolveu testemunhar que os ministérios pensaram “na pessoa que estava na ponta”. Que encontrou portas abertas onde, segundo o folclore político, deveria haver carimbo ideológico.

Isso viralizou porque, no Brasil, normal virou escândalo. O básico passou a ser tratado como traição. A ideia de que recurso público não deveria depender da cor da bandeira partidária parece uma descoberta científica inédita.

O município de Estrela teve bairros inteiros devastados. Recebeu investimentos federais em habitação, educação, saúde, infraestrutura e meio ambiente. Não foi favor. Foi dever. Mas ouvir uma adversária política reconhecer isso soa como heresia num país que prefere conflito a eficiência.

No meio do discurso, ela confessou que sonhava com aquele dia desde que assumiu. Sonhava com casas entregues, não com trending topics. Incomodou Caixa, pressionou equipe, correu atrás das 800 moradias. Porque desenvolvimento começa por um teto que não pinga. O resto é debate para auditório climatizado.

A enchente talvez tenha feito o que a política não conseguiu: dissolver fronteiras artificiais. A água não perguntou em quem cada morador votou. Levou tudo igual. A reconstrução, ao que parece, também não perguntou.

Fica a cena improvável: uma prefeita oposicionista agradecendo um presidente de outro campo ideológico. Gente respirando depois de quase se afogar. Casas saindo do papel. Ministérios dizendo sim quando o orçamento municipal diz não.

“É constrangedor que isso seja notícia. Deveria ser rotina. Mas, no Brasil, quando a política funciona como política pública e não como disputa de vaidade, a gente precisa mesmo parar, engolir seco e admitir: talvez ainda haja espaço para governar pensando em gente de verdade” – .sentencia Guaitó, para concluir:

“Milagre não. Só administração. Já seria um avanço considerável”

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